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Mostrando postagens de Agosto, 2016

A cartilha da autora século XXI

De mim, muito algo a desenrolar... Ser mulher é cheirar a ferida aberta Pulsar a flecha certeira Palmatória do mundo a acabar. Profissão escolhi, Estudos cumpri, Casa vigiei e arrumei.
Mas meu deleite é outro: Letras a bailar Em papéis, telas e folhas; Perpetuar nas cabeças A alma de minhas histórias. Carregar pedras Para traduzir sentimentos e desejos: Mandamentos de autora! Pedras escritas e relidas
Compromisso em ser mulher É reler e desdobrar A hélice das tramas de meus ancestrais Sem beber o amargor
Do chicote malfeitor.
Publicado na Antologia Poética Mulher Poesia, pela COGITO, 2016, p.16

Águas de Dandalunda

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Em Santiago do Iguape
revi as matas de Ossayin.
Pisei no engenho
observei a miragem
dos barcos dos Senhores
rumo à igreja.

Abracei a memória dos meus ancestrais
e senti ares de minha casa
para além do Atlântico.

Mas retomei dos pensamentos
pelas águas do Paraguaçu:
aí foi uma kizumba só!

Dancei samba de roda
ginguei na capoeira
casei amores nas quadrilhas de junho
e sm piscar
beijei meu preto no coreto da praça.

No quilombo, olhares irmanados.
O canto d'Os Bantos
       me levou para o colo de Dandalunda
e lá ninei meus sonhos
aquilombei meus prazeres
enfim, encontrei meu lar.

Ana Fátima dos Santos

(publicado em Cadernos Negros vol. 37 - poemas afro-brasileiros, SP: Quilombhoje, 2014, p.26)